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A IGREJA COMO INSTITUIÇÃO. ESSE É O MODELO BÍBLICO!

A mente pós-moderna, mergulhada no pluralismo relativista, tende a resistir a qualquer forma institucionalizada de agrupamento humano. Isso porque as instituições, em regra, nutrem uma forma oficial de liderança, além de normas fixas de funcionamento, fatores esses que inibem a livre expressão de pensamento e de ação de seus membros. É por isso que, adotando essa forma mundana de pensar, muitos evangélicos insistem num tipo de funcionamento eclesiástico totalmente espontâneo, livre de elementos organizacionais tais como prédios de educação religiosa, grupos de oficiais eclesiásticos, sequências litúrgicas, departamentos e quaisquer outros aspectos próprios de uma instituição formal.

Geralmente, essa proposta é acompanhada pelo argumento de que as igrejas neotestamentárias não eram unidades institucionalizadas, de modo que seus membros se reuniam no contexto informal dos lares, livres dos complexos mecanismos organizacionais de hoje, os quais, segundo entendem, servem apenas para manter uma minoria intransigente em privilegiados postos de controle.

A pergunta que a análise crítica dessa proposta levanta é a seguinte: será mesmo que as igrejas do Novo Testamento não tinham nenhuma marca institucional? A resposta a essa pergunta, quando construída sobre bases bíblicas, desfere um terrível golpe contra a visão ultrainformal. Sim, pois desde o evento de Pentecostes (c. 30 AD) até a composição do Livro de Apocalipse (c. 90 AD), ou seja, ao longo de um período de, aproximadamente, sessenta anos, a igreja primitiva desenvolveu uma estrutura de funcionamento que passou de um alto grau de informalidade para a fixação de um modelo institucional comparativamente complexo, criado a partir das necessidades que as circunstâncias foram impondo com o passar do tempo.

Assim, se no ano 30 AD tudo que havia era a liderança dos apóstolos, dedicados somente à oração e ao ministério da Palavra (At 6.4), naquele mesmo tempo surgiu um grupo eleito pela comunidade cuja responsabilidade era cuidar das mesas das viúvas (At 6.1-6). Já a partir daí pode-se ver o germe da institucionalização, com a prática do voto por parte dos membros (At 6.3,5) e a criação de um grupo autorizado para a realização de funções distintas (At 6.6). Em termos de nível de organização, portanto, a igreja de Atos 6 é diferente da igreja de Atos 2!

E as mudanças continuaram. Ao fim da Primeira Viagem Missionária (c. 47 AD), as igrejas fundadas por Paulo e Barnabé assumiram um formato diferente daquele inicialmente visto em Jerusalém. Com efeito, nas novas comunidades, o povo também aparece votando, dessa vez, porém, para escolher pastores (At 14.23) - um grupo de líderes que, mais tarde, Paulo chama de “presbitério” (1Tm 4.14): mais um passo no rumo da institucionalização.

Logo em seguida, em cerca de 48 AD, a liderança eclesiástica apostólica, tão ligada ao modelo informal da igreja recém-inaugurada, começou a dar sinais de declínio. Vê-se por esse tempo a reunião de um concílio eclesiástico em Jerusalém (At 15.1-29), o início da primazia da figura do bispo (na pessoa de Tiago que tem a palavra final no concílio), as decisões conciliares sendo aprovadas por uma assembleia formalmente constituída por pessoas com direito a voto... Ora, tudo isso dá sinais óbvios da lenta institucionalização da igreja, menos de vinte anos depois da sua fundação.

Componentes que marcam a igreja do Novo Testamento como uma instituição bem-organizada podem ser encontrados também nas epístolas. Os exemplos são numerosos, mas observe-se aqui Filipenses 1.1. Esse versículo mostra que o grupo que, por volta de 30 AD, foi eleito para servir as mesas das viúvas (At 6.1-6), isto é, os diáconos, em cerca de 61 AD transformou-se num conselho de oficiais da igreja, ao lado dos bispos e distinto da assembleia como um todo.

Aliás, os “diáconos”, como passaram a ser chamados, começaram a exercer um papel tão sério como líderes que, em cerca de 66 AD, Paulo escreveu a Timóteo dizendo que os mesmos requisitos impostos a quem desejasse ser bispo deveriam também ser exigidos dos que quisessem ser diáconos. A única exceção parece ter sido a aptidão para ensinar (1Tm 3.8-13).

Ademais, é impossível fazer alusão às Epístolas Pastorais (1 e 2Timóteo e Tito), sem lembrar que essas cartas, escritas em meados da década de 60, não somente mostram uma liderança institucional na igreja (1Tm 3.1-13; 5.22; Tt 1.5-9), como também revelam a fixação de uma liturgia básica (1Tm 2.1; 4.13-14), além de regras de funcionamento que os crentes deveriam observar a fim de que se comportassem adequadamente na “casa de Deus” (1Tm 3.14-15).

Na organização mais complexa que já havia por volta de 66 AD, há até uma ordem de viúvas, na qual as participantes só podiam ser inscritas se preenchessem certos requisitos enumerados pelo apóstolo (1Tm 5.9-12). As mulheres inscritas nessa ordem receberiam provisão material da igreja.

Quão diferentes são entre si, portanto, as igrejas do Novo Testamento quando observados os diversos estágios em que se encontram no seu lento processo de organização. Realmente, a igreja de Jerusalém, sob a liderança de Pedro, é marcada por quase completa informalidade. A de Éfeso, porém, debaixo da autoridade de Timóteo, tem todos os traços de uma instituição religiosa madura, com um presbitério, um conselho de diáconos, um processo fixo para a formação e investidura de líderes, um conjunto de regras objetivas de funcionamento, várias normas relativas ao culto e uma associação formalmente organizada de mulheres carentes.

Assim, é vazia a crítica dos evangélicos que se insurgem contra a igreja como organização. Com efeito, não há nada de antibíblico no modelo eclesiástico institucionalizado. Na verdade, esse modelo é a expressão neotestamentário do estágio mais avançado de amadurecimento funcional de uma igreja.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

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