E aquele que vem a mim, não o lançarei fora.
Isso é adicionado para a consolação dos santos, para que possam ser plenamente persuadidos de que têm livre acesso a Cristo pela fé, e para que, tão logo se tenham colocado sob sua proteção e guarda, sejam graciosamente recebidos por ele. Daí se segue que a doutrina do evangelho será salutar a todos os crentes, porque ninguém se faz discípulo de Cristo sem que não, em contrapartida, sinta e experimente ser ele um bom e fiel mestre.
Porque eu desci do céu. Esta é uma confirmação da afirmação precedente, ou seja: que não buscamos a Cristo em vão. Porque a fé é uma obra divina, por meio da qual Deus mostra que somos seu povo e designa seu Filho para ser o protetor de nossa salvação. Ora, o Filho não tem outro desígnio senão cumprir as ordens de seu Pai. Consequentemente, ele jamais rejeitará aqueles a quem o Pai tem enviado a ele. Daí, finalmente, se deduz que a fé jamais será infrutífera. Quanto à distinção que Cristo faz entre sua própria vontade e a vontade do Pai, neste aspecto, ele se acomoda a seus ouvintes, porque, como a mente humana se inclina à desconfiança, costumamos inventar alguma diversidade que produz hesitação. Com o fim de eliminar todo pretexto das imaginações perversas, Cristo declara que ele se manifestou ao mundo a fim de poder realmente ratificar o que o Pai decretou concernente a nossa salvação.
E esta é a vontade do Pai. Fiel agora testifica que este é o
desígnio do Pai: que os crentes encontrem salvação assegurada em Cristo, do que novamente se segue que todos quantos não tiram proveito da doutrina do evangelho são réprobos. Por isso, se virmos que ela se reverte na ruína de muitos, não temos razão para desapontamento, porquanto tais pessoas, voluntariamente, atraem o mal para si mesmas. Descansemos felizes neste fato: o evangelho terá sempre o poder de congregar os eleitos para a salvação.
Que a nenhum eu perca. Isto é: “Que eu não permita que seja tirado de mim, ou que pereça”, pelo que ele quer dizer que não é o guardião de nossa salvação por apenas um dia, ou por uns poucos dias, mas que cuidará dela até o fim, de modo que nos conduzirá, por assim dizer, do início ao término de nossa trajetória. Esta promessa nos é prioritariamente necessária, a nós que miseravelmente gememos sob tão grande debilidade da carne, do que cada um de nós é suficientemente cônscio, e de fato a cada momento a salvação do mundo inteiro ficaria arruinada não fosse o fato de que os crentes, sustentados pela mão de Cristo, avançam ousadamente rumo ao dia da ressurreição. Portanto, que isto fique bem fixo em nossa mente: que Cristo nos estendeu sua mão não para nos perder no meio da trajetória, mas para que, confiando em sua benevolência, ergamos ousadamente nossos olhos para o dia final Hã, ainda, outra razão por que ele menciona a ressurreição. É porque, enquanto nossa vida estiver oculta [Cl 3.3], somos como pessoas mortas. Porque, em que aspecto os crentes diferem dos ímpios, senão que, esmagados por aflições, e como ovelhas destinadas ao matadouro [Rm 8.36], tendo sempre um pé no túmulo e, deveras, não estamos longe de ser continuamente tragados pela morte? E assim não resta alí nenhum outro apoio de nossa fé e paciência senão este: que percamos de vista a condição da presente vida, e apliquemos nossas mentes e nossos sentidos ao último dia, vencendo as obstruções do mundo, até que o fruto de nossa fé por fim entre em cena.
Comentários Bíblico de João Calvino (Jo 6:37)
- Rodrigo Bispo
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